Você sabe como é produzida uma pérola?

Você sabe como é produzida uma pérola?

“Eu tenho meu trabalho, minha vida, meus outros filhos, não sou dependente; ele é o doente e, portanto, ele precisa se tratar não eu, mesmo porque não tenho tempo, afinal, tenho que trabalhar dobrado para pagar seu tratamento.”

Este é o tipo de explicação trazido na maioria dos casos, pelos membros que compõem a família, mas será que o problema da dependência química e alcoólica se restringe apenas ao consumo de álcool e outras drogas; ou será que a família também faz parte do problema através da maneira como as partes se relacionam.

Quando as coisas dão errado nos relacionamentos, a maioria de nós tende a dar os créditos, generosamente, ao outro. Na dependência química, alcoólica ou em qualquer outro tipo de dependência, a base para a manifestação do sintoma, encontra-se no relacionamento familiar.

As explicações lineares que assumem a forma de A causa B utilizadas tanto em doença nas relações humanas e, se tornam muito simplista e, o fracasso no tratamento em decorrência desta visão focada apenas no indivíduo e não no grupo, no contexto geral, acaba se tornando uma constante.

Se realizarmos uma observação mais apurada do mundo, tendo como referência a nossa própria pessoa – “EU”, conseguimos enxergar mais nitidamente a contribuição das outras pessoas com quem nos relacionamos no dia-a-dia, nos nossos problemas mútuos. Quando conseguimos compreender que a reciprocidade é o princípio que governa os relacionamentos, conseguimos pensar além dos termos de vítimas e vilões.

Relacionamento Familiar

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Como mostra o esquema acima, todos os membros da família se relacionam entre si, e cada ação realizada por um de seus componentes, reflete e gera uma reação dos demais.

Mesmo que um de seus membros seja extirpado do convívio por algum motivo, sua representação fantasmagórica permanece.

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O esquema acima nos permite entender por que na maioria dos tratamentos para dependência química e alcoólica, as reincidências do paciente se tornam uma constante. A família pode ser representada como um organismo vivo; a primeira instituição a qual o indivíduo faz parte e aprende a conviver em sociedade. O poder da terapia familiar deriva-se em juntar pais e filhos para transformar suas interações. Ao invés de isolarmos o indivíduo das origens emocionais de seus conflitos, os problemas são tratados em sua fonte.

A grande trava que impede de gerar fatores que motivem a mudança de comportamento do paciente é a dificuldade que os membros de sua família, têm de enxergar a própria participação nos problemas que os atormentam, não percebendo os padrões que os mantém unidos. Este é o papel fundamental do psicólogo, do terapeuta familiar, mostrar os padrões familiares que acabam por manter a dependência de seu membro.

O processo de desenvolvimento familiar deve seguir em espiral, sempre em evolução, crescimento.                                 Quando por algum motivo, começam a girar em círculos, devido a algum conflito, que se não identificado e resolvido, acaba a promover a doença.

Vou tentar fazer uma comparação, uma analogia, para tentar explicar o quanto o adoecimento é importante para o crescimento familiar, no que tange as relações afetivas e desenvolvimento da maturidade de seus membros.

Todos conhecem uma pérola?

Sabem como ela é produzida?

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A pérola surge quando uma impureza, algo agressivo como areia ou verme, penetram na cavidade da concha. Por se tratar de algo ofensivo, o molusco passa a envolve-lo com nácar, conhecida como madrepérola ao redor da impureza, com intuito de se proteger. A gema tão valiosa na confecção de joias e que traz encanto diante de sua delicadeza, surge como defesa de algo nocivo ao molusco. Porém, existe um detalhe, mesmo o corpo estranho não sendo mais uma ameaça ao molusco.

A dependência química no seio familiar, como o acometimento de qualquer outro adoecimento a nível de comportamento, se desenvolve com o intuito de denunciar algo errado no relacionamento de seus membros, como a invasão ocorrida na concha descrita anteriormente. A maneira como será conduzido o processo de inoculação do problema, é que fará a diferença, podendo tornar-se uma pérola, através do aprendizado e da correção da falha no relacionamento, ou na morte (metaforicamente falando) da família, que também acabaria por adoecer.

As pérolas surgem no tratamento das dependências, quando o paciente consegue se recuperar com o auxílio de sua família que juntos, inoculam o problema através de novas atitudes, construindo gradativamente de maneira firme, rígida como o nácar.

Como as pérolas, este é um caminho longo a ser percorrido. As pérolas se constituem após 3 (três) anos de trabalho contínuo, persistente, devendo ser assim também com o dependente e sua família na frequência de grupos de apoio e acompanhamento psicológico. O molusco que confecciona a perola, mantém a produção do nácar por toda a vida, assim como o dependente e sua família devem manter-se firmes na manutenção de sua nova dinâmica. Outro comparativo com as pérolas, é que estas também são raras na natureza, ocorrendo numa proporção de 1 – 10.000; assim ocorrem as recuperações sem o devido acompanhamento, porém, as pérolas podem ser cultivadas, obtendo-se o mesmo resultado em uma população maior. Pense nisso!

A mudança no comportamento grupal, requer “descongelamento”. Só depois que algo sacode as crenças de um grupo é que seus membros estarão preparados para aceitar a mudança e, ainda assim, alguns não estarão suficientemente desestabilizados pelo sofrimento do dependente para pensar em mudar seu jeito de ser. Isto ocorre porque dentro da instituição família existe toda uma referência de convívio grupal com suas tradições, costumes e hábitos, e a mudança neste sentido, representaria uma mudança de identidade rumo ao desconhecido.

Observamos com certa frequência que com a melhora do paciente, alguém na família adoece, como se a família precisasse de um membro sintomático; mas em outros casos, a família passou a se desenvolver de maneira adequada e saudável a todos os seus membros.

 Isso nos mostra que a mudança de uma pessoa muda o sistema familiar, e cada qual irá reagir de acordo com o papel desempenhado por ele no grupo, o que definirá seu adoecimento ou não a partir da melhora do membro sintomático.

Qual o tipo de relacionamento grupal existente em sua família? Qual o papel desempenhado por cada um de seus membros? Qual ensinamento tem transmitido aos membros mais novos?

São inúmeras as questões que devem ser avaliadas para entender o processo que levou o dependente ao uso. Obviamente existe uma predisposição orgânica, mas esta sozinha não permitiria o desenvolvimento da doença, tendo esta podido permanecer latente por toda uma vida sem se manifestar. Outros fatores somados a sua predisposição orgânica, atuaram, tais como social, psicológico e espiritual em seu sentido mais amplo.

Esta análise é bastante complexa e muitas vezes difícil, sendo necessário uma intervenção profissional.

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